Conceitos

Autonomia – um desafio necessário.

O conceito de autonomia remonta da Grécia Antiga, auto “de si mesmo” e nomos “lei”, já foi objeto de estudo em diferentes campos do saber e em diferentes momentos da história. Na educação foi através de Paulo Freire que conhecemos a Pedagogia da Autonomia e é a partir das discussões apresentadas nesta obra que me aproprio deste conceito.

Ainda nas primeiras páginas Freire nos adverte “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”, ou seja, o sujeito Aprendente é responsável pela operação de construção do seu conhecimento. Aos educadores cabe construir um ambiente de estímulos e se colocar em um papel de suporte.

Educar em uma relação de respeito é uma tarefa complexa, pois nos obriga a recuar frente nossos impulsos intervencionistas para que possibilitemos espaço de experimentação ao Aprendente.

Aos pais e cuidadores este movimento é difícil por trazer à tona o medo de não cumprir o papel de proteção, de espaço ser confundido com abandono. A culpa por erros muitas vezes nem cometidos acompanham os responsáveis por crianças e adolescentes, nossa sociedade julgadora alimenta esse processo.

Para os professores a dinâmica é diferente. A concepção de educação escolar da sociedade ocidental foi construída sob a centralidade do mestre, daquele que detém o conhecimento e deve transferi-lo a um aprendiz passivo e preferencialmente dócil. De maneira disforme essa concepção ainda está presente na estrutura educacional brasileira (salvo escolas que se posicionem de forma teórica e prática em concepções pedagógicas diferenciadas). O mestre deixou de existir, hoje temos um professor desvalorizado em seus conhecimentos e também em sua carreira profissional, mas o protagonismo não passou aos estudantes, este papel hoje é dos conteúdos.

Acima do professor está um sistema de ensino, marcado pela presença de fortes editoras e grupos educacionais, que tem trabalhado intensamente para a padronização das salas de aula, mesmo que em seus slogans usem conceitos de liberdade e aprendizagem significativa.

Dentro deste cenário nada ideal, quais seriam as consequências de uma educação não autônoma?

Segundo o Núcleo Ciência Pela Infância – NCPI, a capacidade de agir de forma autônoma não é inata, ela é construída desde a primeira infância através de um ambiente de interações sociais adequadas. São os cuidadores responsáveis pela criança, tanto no espaço familiar quanto escolar, que devem possibilitar esse espaço de estímulos saudáveis.

A aquisição da autonomia é um processo longo e que se constrói através da relação da criança com os cuidadores, o meio e consigo mesma.

Para o NCPI, “ter autonomia significa não apenas possuir independência, mas também estar inserido na sociedade, assumir consequências por decisões tomadas e possuir responsabilidade”. Essas características estão relacionadas a diversos indicadores de qualidade de vida como: saúde física e mental, desempenho acadêmico, atuação profissional e menores chances de adotar comportamentos de risco.

Uma educação que não possibilite um desenvolvimento autônomo traz prejuízos em inúmeras esferas da vida. O Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância aponta que nas atividades diárias, o sujeito encontrará dificuldades na organização de suas rotinas, gerando conflitos no convívio social. Na esfera acadêmica e profissional as diferentes etapas de um projeto ou a busca criativa para a resolução de problemas serão especialmente desafiadoras.

Para além dos impactos práticos da falta de autonomia podemos citar também alguns elementos que envolvem a construção da identidade. Paulo Freire ressalta que no processo educativo, seja ele escolar ou familiar, acontece a “reinvenção do ser humano no aprendizado de sua autonomia”.

Uma educação voltada à autonomia é oferecer ao educando um espaço de diálogo, respeito e segurança para que ele possa construir a si mesmo com liberdade e acolhimento.

Para colaborarmos com o processo de aquisição da autonomia, compreender o que são as funções executivas pode ser de grande valia, pois “a autonomia de um indivíduo depende fundamentalmente do desenvolvimento das funções executivas”. Estas funções são um conjunto de habilidades relacionadas a atitudes conscientes e intencionais no que tange ações, pensamentos e emoções.

Podemos destacar três dimensões das Funções Executivas: a memória de trabalho permite armazenar, relacionar e pensar informações no curto prazo; o controle inibitório possibilita controlar e filtrar pensamentos, ter o domínio sobre atenção e comportamento; e a flexibilidade cognitiva permite mudar de perspectiva no momento de pensar e agir e considerar diferentes ângulos na tomada de decisão.

A Memória de Trabalho atua na manipulação das informações que devem ser utilizadas no curto prazo. Sem ela teríamos dificuldade de dar continuidade após uma interrupção a uma ação que envolve diferentes etapas e regras, pois teríamos que relembrar cada um dos elementos que compõe aquela atividade. O estímulo para o desenvolvimento da memória de trabalho acontece, inicialmente, na compreensão de que para realizarmos uma ação devemos seguir alguns passos. Os jogos são ferramentas ricas para esse estímulo, pois suas regras são armazenadas como memória de trabalho para que possamos criar estratégias e solucionar seus desafios. Outra possibilidade é o exercício de lembrar dos personagens de uma história fora do seu contexto original e relaciona-lo coerentemente em outra situação, lembrando de suas características e feitos.

O Controle Inibitório está intensamente relacionado com nossa capacidade de manter o foco em um objetivo específico, mesmo com estímulos contrários, do ambiente ou internos ao sujeito. Manter o foco em uma conversa, uma atividade de estudo, um afazer doméstico até mesmo em uma atividade de lazer como um jogo ou uma brincadeira, são atividades que exercitam a manutenção da atenção. Alguns rituais cotidianos auxiliam esse processo e podem ter início ainda na primeira infância como a higiene pessoal, a atenção na hora das refeições, se vestir e guardar os brinquedos. Com o crescimento e amadurecimento da criança esses rituais devem se tornar mais complexos e diversos incluindo atividades intelectuais como a leitura e as tarefas escolares.

A Flexibilidade Cognitiva está relacionada à nossa capacidade de adaptação frente a novas situações ou informações, à postura de reflexão e análise sobre diferentes óticas e argumentos. Esta dimensão das funções executivas abre caminho para uma relação mais aberta e menos conflituosa do sujeito com o mundo que o cerca, pois permite que ele identifique erros, mude suas estratégias e respeite abordagens diferentes das suas. Um ambiente que possibilite a criança lidar com os pequenos conflitos cotidianos entre irmãos, primos, amigos de escola está oferecendo a oportunidade de desenvolver a flexibilidade cognitiva. Podemos encontrar outros incentivos em jogos de estratégias e enigmas, e principalmente no exercício da investigação e no uso irrestrito da curiosidade.

Os diferentes aspectos das funções executivas estão interligados e na medida que exercitamos um deles estamos, ao mesmo tempo, fazendo uso de outros e desenvolvendo-os também. O melhor cenário para o desenvolvimento destas funções é um ambiente rico em estímulos saudáveis e adequados a cada faixa etária, onde o diálogo e o acolhimento ofereçam segurança para o pleno desenvolvimento da criança e do adolescente.

Durante a primeira infância vivemos o melhor momento para este aspecto do desenvolvimento neurológico. As pesquisas do NCPI indicam que até os seis anos, é possível elevar substancialmente a proficiência em habilidades relacionadas às funções executivas e esse desenvolvimento será determinante para o amadurecimento destas em idades posteriores.

Desta maneira, é no espaço familiar e na pré-escola que podemos auxiliar as crianças a criarem as bases para um pleno desenvolvimento destes aspectos. Devemos permitir que as crianças desbravem o mundo a sua volta, conhecendo formas e texturas diferentes (desde brinquedos, roupas até alimentos), que se relacionem livremente com os sujeitos de seu círculo social e descubram na prática como lidar com as opiniões diferentes, com perder e ganhar, e até mesmo com um puxão de cabelo recebido.

Quando Paulo Freire fala sobre uma pedagogia voltada para a autonomia ele diz que a posição da mãe ou do pai é a de quem, sem nenhum prejuízo ou rebaixamento de sua autoridade, humildemente, aceita o papel de enorme importância de assessor ou assessora do filho ou da filha. São as nossas inseguranças que dificultam o movimento de nos colocarmos como suporte e não como condutores da vida de nossos filhos. Freire nos indica algumas possibilidades de como tomar esse papel de assessoria. “Por que, por exemplo, não desafiar o filho, ainda criança, no sentido de participar da escolha da melhor hora para fazer seus deveres escolares? Por que o melhor tempo para esta tarefa é sempre o dos pais? Por que perder a oportunidade de ir sublinhando aos filhos o dever e o direito que eles têm, como gente, de ir forjando sua própria autonomia?”

É justamente nessas situações que percebemos que ao mesmo tempo que nos colocamos como educadores, somos também educandos. Nossos filhos nos ensinam muitas coisas, paciência, respeito, coerência com nossas próprias regras e convicções. Não há maneira mais eficaz de educação do que o exemplo, ao educar nossos filhos devemos necessariamente educar a nós mesmos. É nesse aspecto que não existe ensinar sem aprender e aprender sem ensinar. Neste processo de educação mútua a pedagogia da autonomia destaca que “uma das tarefas pedagógicas dos pais é deixar óbvio aos filhos que sua participação no processo de tomada de decisão deles não é uma intromissão, mas um dever”. O imenso desafio é encontrarmos o equilíbrio entre dar espaço e proteger.

No espaço escolar a dinâmica não é tão diferente, Paulo Freire aponta que “exercer a minha autoridade de professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, estabelecendo tarefas, cobrando a produção individual e coletiva do grupo não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever”. O desafio do professor também é o equilíbrio, no seu caso, entre ser o condutor do processo de aprendizagem sem tomar o papel de protagonismo que cabe ao estudante. A proporção entre esses elementos só se encontra através de uma prática pedagógica pautada no diálogo, no respeito ao estudante enquanto um sujeito de saberes e competências, dotado de uma história e um lugar na sociedade.

É a partir deste fazer pedagógico que podemos construir uma aprendizagem significativa, que tenha como ponto de partida os interesses do educando, sua realidade, seus saberes. “Por que não estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberescurriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?” Ao possibilitarmos ao estudante exercer esse protagonismo estamos contribuindo para a construção de uma autoestima positiva que permita ao sujeito se expressar de forma mais confiante durante o processo de aprendizagem, exercendo e desenvolvendo sua autonomia.

Que possamos ofertar à nossas crianças e adolescentes espaços onde eles sejam respeitados, onde possam externar seus sentimentos, medos, inseguranças, assim como sua criatividade, saberes e habilidades. Que eles possam nos ensinar a ser mais ouvintes e coadjuvantes, pacientes e seguros.

Por fim, que o conceito de autonomia esteja presente em nossas concepções educacionais, seja na família ou na escola, que possamos refletir sobre o que nos ensina Paulo Freire, uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade.

Que possamos educar com respeito, liberdade e acolhimento!


Referências:

FREIRE, Paulo . Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). Funções executivas e desenvolvimento infantil: habilidades necessárias para a autonomia. São Paulo, SP: NCPI, 2016.

https://ncpi.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Funcoes_executivas.pdf 

Historiadora, mestre em ensino de História e pós-graduanda em Neuropsicopedagogia clínica e Educação Especial e Inclusiva. Mãe de Mariana Flor de 5 anos e Antônia Dara de 1 ano.

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